Eu Não Quero Voltar Sozinho

Entrevista: Daniel Ribeiro e Fabio Audi de ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’

30/05/2011 postado em Cinema, Entrevistas

A Review Mag bateu um papo com o Daniel Ribeiro e o Fabio Audi, diretor e ator do curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”.

Cinema Relevante

Formado em audiovisual pela ECA, Daniel dirigiu os curtas “Café Com Leite” e “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, ganhador de melhor curta-metragem no Festival de Paulínia em 2010. Ambos têm como pano de fundo a temática homossexual.

Eles falaram sobre o papel da internet na formação de um público para o cinema nacional e de seus futuros projetos. Olha só…


Review Mag: Como te ocorre uma idéia para um projeto?
Daniel Ribeiro: Depende, os dois filmes (“Café Com Leite” e “Eu Não Quero Voltar Sozinho”) são fruto de uma pesquisa que eu fiz para o meu TCC, tinha que fazer um projeto teórico e apresentar um roteiro. O meu projeto era sobre o personagem homossexual no cinema brasileiro. Como eu não passei para fazer o curta, acabei tendo que escrever um projeto teórico inteiro, então eu me aprofundei nessa questão do personagem gay no cinema. O “Café Com Leite” surgiu disso, a idéia era fazer um filme com personagens gays sem que a sexualidade fosse o foco.

RM: Você escreve sozinho?
DR: Eu escrevo primeiro alguns tratamentos e depois passo para alguns amigos. Agora, quando entra em fase de produção muda muito. Diálogo é outra coisa, em teste de elenco você já começa a arrumar os diálogos. Você começa a perceber coisas quando você vê os personagens ganhando corpo.


RM: Vocês ensaiam bastante?
DR: Eu gosto de ensaiar bastante porque daí chega na hora do set e a última coisa que você se preocupa é com o ator porque eu tô seguro que eles estavam lá. Porque você tem dez milhões de coisas para se preocupar, é a luz, o figurino, e daí eu tinha a segurança de que eles estavam bem.


RM: Como funciona a parte de produção?
DR: Tem a Diana Almeida, que é a produtora que fez os dois filmes, eu tenho uma parceria com ela muito grande. Nós dois somos os produtores do filme, no sentido de que a gente faz o projeto, ela também opina muito em várias questões. Boa parte da equipe veio do “Café Com Leite”, gente da faculdade que é amigo e gente que você já trabalhou e deu certo.


RM: Como foi o feedback de “Eu Não Quero Voltar Sozinho”?
Fábio Audi: Foi muito forte, principalmente depois que foi para o YouTube. É engraçado porque muita gente viu e muita gente acha muito bom. O pessoal não só vê como vai atrás de você. O pessoal reconhece na rua, muita gente cita por aí: no Twitter você vê muita gente falando: “assistam, é muito bom”. Daí é muito bom.

DR: Internet muda muito. Dá para ver o que aconteceu com “Café Com Leite” e com esse filme. Você vai construindo um público. Fazer propaganda do filme é muito caro então você tem esse contato com as pessoas. Para a gente foi muito bom encontrar esse público que gostou do filme.

RM: O que vocês acham da produção audiovisual atual que tem uma temática homossexual?
DR: Tem muitos exemplos, tem exemplos que são ótimos e exemplos que são ruins. O bom é que tem uma diversidade, em algum momento existia só personagem estereotipado. O motivo de preconceito era muito por causa disso. E não que esse tipo de personagem fosse ruim, é uma realidade também, tem muita pessoa que é daquele jeito e é legal. Mas tem zilhões de tipos de gays.


RM: Vocês sofreram algum tipo de preconceito por causa do filme?
DR: Tem um povo no YouTube que xinga.

FA: Tem um pessoal que fica com dó da menina: “lá lutando, chega o cara e pega”. Teve alguém que chorou até.

DR: A gente tinha medo de ela ser chata, a gente falava muito com a Tess (atriz que interpreta Giovana) porque a gente não queria que ficasse pesado. Tinha que ser leve porque é um filme leve no geral.

FA: O público tem uns momentos de catarse, principalmente com a Giovana. Ela vai levando o público heterossexual, tipo: “namorado gay?”


RM: Você fez algum tipo de pesquisa com a parte de deficiência visual?
FA: Vários ensaios foram no Centro Cultural São Paulo, que tem a biblioteca braile. A gente foi lá, conversamos com os cegos. E o Gui (Leonardo) que tinha que aprender a andar, e tentando descobrir o “eu” do Gui.

RM: Você procura ter uma narrativa paralela de símbolos? Como o agasalho de “Eu Não Quero Voltar Sozinho”?

DR: Eu acho que isso faz parte dessa segunda construção, tem a história principal e depois vão surgindo essas coisinhas que eu gosto, detalhes que vão costurando e funcionam como símbolos. O agasalho também é um símbolo. Eu gosto de criar esses elementos, metáforas também.

 

RM: De onde surgiu “Eu Não Quero Voltar Sozinho”?
DR: Surgiu da questão: da onde vem o nosso desejo? Ele vem de dentro ou ele vem de fora? Então quando você pega um personagem gay que nunca viu um homem, nunca viu uma mulher, como esse desejo surgiu dentro dele? Acho que isso era forte para levantar questionamentos. Claro que o desejo não surge só pela visão, mas a sexualidade tem muita a ver com a visão, a gente tá sempre associando ela a isso. Então quando você vê um cego, faz cada um pensar da primeira vez que sentiu algum desejo.

RM: Esse filme é exibido em escolas?
DR: Tem uma ONG que está exibindo esse filme em umas escolas de Osasco. Eles fizeram uma áudio descrição do filme e a versão em libras. Eles são uma ONG de acessibilidade, pediram para fazer isso com o curta e distribuíram em várias escolas. Pelo o que falaram, essas exibições são ótimas, os professores gostam muito, ajuda muito na forma como explica porque não é didático.


RM: E você tem planos de fazer um longa?
DR:
Vai ter um longa do “Eu Não Quero Voltar Sozinho” que chama “Todas as Coisas Mais Simples”. A gente acabou de ganhar o edital do BNDES, que é uma parcela, ainda tem que ganhar mais um monte de edital para financiar o longa. E a idéia é que seja o mesmo elenco. Eu não falo isso para as pessoas não me odiarem, mas o longa não é uma continuação do curta. É que eu acho que a grande graça dessa história é a descoberta do menino que é cego. E quem sabe a gente faz um seriado depois…

FA: Eu não posso envelhecer… (risadas)

DR: A internet mudou tudo. A gente passou em muito festival, ano passado foram 27 festivais, no segundo semestre só. Muita gente viu, mas quando a gente colocou no YouTube a gente percebeu que ninguém tinha visto mesmo. A internet é o lugar onde as pessoas vêem filmes. As pessoas divulgam, comentam, se apropriam um pouco do filme. A internet veio para dar voz a todo mundo.

FA: E eles vão refletir e vão querer produzir também. Curta é mais fácil de produzir que um longa, o formato se parece com a internet, isso que é legal.

DR: A internet muda isso para os curtas, até para os longas porque as pessoas tem um acesso absurdo aos filmes. É mais legal ter um filme que as pessoas assistam. A gente descobre o cinema brasileiro por aí também.  Claro que não substitui 35mm nem só pela qualidade, mas pela experiência de estar no escuro prestando atenção com outras pessoas. Essa experiência coletiva não tem como substituir.


Pauta: Gustavo Federico e Mariana Serapicos
Fotos: Yeska Nakamura


Mais fotos da entrevista na nossa página do Facebook: http://www.facebook.com/pages/Review-Mag



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7 Responses para “Entrevista: Daniel Ribeiro e Fabio Audi de ‘Eu Não Quero Voltar Sozinho’”

  1. Felipe Castro


    Já conhecia o curta e saber que ele pode virar longa e talvez seriado, é TUDOOOOOOO!

  2. Gabee


    ótimo Guh! Já divulguei pras amigui.

    bejão

  3. Manifesto: Eu Não Quero Ser Censurado « Review Mag


    [...] vocês já devem ter assistido e lido a entrevista que fizemos com diretor e elenco do curta “Eu Não Quero Voltar Sozinho”. Pois bem, há alguns [...]

  4. Yury Carvalho


    Axei o curta muito interrenssante
    por ser um pequeno filme falando de um assunto muito rejeitado pela sociedade
    é uma forma de sensebiliza as pessoas para saberem mas sobre a homossexualidade, e tambem combate o preconceito de pessoas iginorante que pensam que homo(homossexual) é uma pessoa diferente…

  5. Ryan


    je pense que c’est un bon film court même si je n’ai pas connue et peut françaises avaient à lire les sous-titres. Je pense qu’ils devraient refaire le film, mais le faire plus longtemps et en anglais car je pense que cela pourrait être un film greart
    (cela se traduit par google)

  6. Lucas Gilbert


    Eu achei o Curta “Eu não quero voltar sozinho” Muito legal, gostei muito de ver… Porque é um Filme simples, mais legal e muito interessante!

  7. Guilherme Antonio


    Adorei o curta e que historia é essa que vai ter seriado ?! Meu Deus estou feito adorei o curta chega chorei no final não vejo a hora de lançarem o longa :3
    QUE SE FODAM ESSES IDIOTAS HOMOFÓBICOS.

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